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09/09/2011

MANIFESTO DO CREALISMO

MANIFESTO DO CREALISMO

Oito pontos para um contínuo início

 

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1) No coração do real age uma criação contínua, material e espiritual. “O mundo é/deve ser  a minha criação”, é a ética diferencial do sujeito enquanto indivíduo singular. Verdade cujo acontecimento inter-relacional continua a ocorrer aqui e ali ao longo da História. Verdade muitas vezes esquecida diante das humilhações desencorajadoras do “mundo como está” e dos “humanos como são”. O crealismo não é um antropocentrismo que separa artificialmente uma natureza-objeto  dum  humano- mestre e possuidor. Há cumplicidades e afinidades ativas entre o cosmos e aquele que se tornou digno de o escutar e de o trabalhar.

 

2) O capitalismo altera o mundo e leva os humanos a querer alterar o seu corpo e a sua alma segundo modelos ansiógenos. O que é necessário alcançar (já tantos outros o clamaram melhor  antes de mim), é uma alteridade diferencial atuante, uma ética apaixonada, politica, erótica, estética, cósmica, profissional feita de uma ascese aventurosa e de uma tentativa heróica de não monetizar com  as suas extases. A posição contra o niilismo hipnagógico passa por esta exigência aparentemente megalomaníaca de descondicionamento progressivo, umapolítica po(i)ética que tenta restituir à imaginação desejosa, à ideação voluntária e de apoio de novas estruturas o devido reconhecimento em matéria de existência.

 

3) Sejamos claros, à escala individual, os resultados não são sempre espectaculares. O crealismo é uma autodisciplina por vezes ascética num mundo onde as cumplicidades duráveis são raras (o desejo competitivo colonizou todas as esferas, até mesmo onde por tradição menos o esperávamos), os obstáculos frios são frequentes (idiotice e indiferença) e os poços de melancolia são omnipresentes. Mas o  crealismo é também uma extase sensível e mental, uma fonte e uma manifestação de alegria.

 

4) O crealismo coloca o primado da criatividade no centro do ser, e longe de estar destinado só às disciplinas artísticas, concerne a dinâmica que se propaga a territórios ativos, uma praxis sensível e coletiva da singularidade. Deste ponto de vista , o “Créel” é uma germinação imprevisível, um tecido vivo de interrelações com vocação não determinista, enquanto o Real é o seu “composto”, o seu enquadramento automatizado.

 

5) Para os que acreditam em “Deus”, o crealismo equivale a supor que Ele não está imobilizado para sempre. A sua identidade está em constante mudança à medida da sua co-criação através das suas criaturas. O universo é  uma partitura musical em constante (re)composição ao longo da qual as improvisações são sempre possíveis. Somos todos mais ou menos divinos conforme as circunstâncias da nossa vida, ora quando ávidos sonâmbulos, ora quando atores e sensores do “Créel”. O acesso ao diálogo lúcido com as forças magnetizantes e amantes do mundo é mais fácil quando o sujeito goza  de uma certa ascese antimimética e domina as suas pulsões de consumismo e de regressão, a custo dum esforço de renúncia aos (des)prazeres pavlovianos. Nada fácil, porque o totalitarismo do consumismo e da degradação mobiliza-nos constantemente excitando os nossos neurones cansados das suas mensagens em aparência contraditórias (falsa liberdade de escolha entre o higienismo e o grotesco).Todos os dias, o sistema capitalista gasta somas enormes para nos debilitar. Mas felizmente, mesmo os débeis são mentais.

  

6) Contra as castrações dos sinistros desprestigiadores do voar alto, contra a colonização da intimidade da parte dos imperativos publicitários hipócritas, os “crealistas” foram sempre relativos sacrificadores do conforto standard (um certo luxo é-lhes no entanto essencial). Foram sempre filtros do ser,  alto faladores,  refinadores do caos. Sigamos o exemplo deles, ou suportamos ainda e sempre as consequências esquizonevróticas dum mundo estagnado devido ao nosso abandono ou à nossa colaboração com a miséria mercantil, a morosa emulação simuladora, a submissão ao dinheiro que confundimos, como escrevia Marx, com outrem. Agir ou suportar a vergonha quotidiana que tentam nos infligir os soldados (mulheres e homens) da sociedade de classes. Tornar-se mago, pesquisador, das formas, das intensidades e das coincidências, em vez de aceitar a banalidade dos códigos duma época saturada de ecos sem saída.

 

7) Uma situação de efervescência amorosa, sincronicidades, um desejo de justiça que vai além das reivindicações salariais, um belo duelo sem hipocrisias entre adversários nobres. Tudo menos a pusilanimidade dos impulsos atrofiados, o embrutecimento dos estímulos e a idiotice esfomeada, lamechas, trocista, fatalista. A História é triste? Deleuze dizia: “A história designa somente o conjunto de condições por mais recentes que sejam, das quais nos afastamos para desenvolver,  isto é para criar algo de novo”.

 

8) O crealismo é uma política do “Real” enquanto co-criação em desenvolvimento, onde o sujeito coerente-ativo ocupa uma posição co-central com o harmónio cósmico, onde a imaginação, a paixão, a vontade, a arte, o desejo, o amor, redefinem continuamente, no presente e em ato, as condições de possibilidade de uma vida desalienada, de uma existência libre.

 

Luis de Miranda, 2007.

 

 

 

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O movimento “crealista” foi fundado por Luis de Miranda, escritor e filósofo, autor dos ensaios “Ego Trip, la société des artistes sans oeuvre, 2003”; “Une vie nouvelle est-elle possible? Deleuze et les lignes, 2009”; “Peut-on jouir du capitalisme?, 2009”; “L’Art d’êtres libres , au temps des automates,2010”. E, entre outros dos romances “Joie, 1997” ; “À vide,2001” ; “ Moment magnétique de l’aimant, 2002” ; “Paridaiza, 2008” , “Qui a tué le poète?,2011”.


O manifesto do crealismo foi escrito em 14/12/2007.


A associação “crealista” ou “CRÉEL” (Centre de recherche pour l’émergence d’une existance libre) foi fundada em 11 de junho de 2009 para aproximar os “crealistas” do mundo e construir um corpo teórico e vivo.


Ser “crealista” ? “Interrogarmo-nos sobre as evoluções da nossa sociedade em vez de só nos ocuparmos com os problemas do dia-a-dia, ou de sermos os espetadores-consumidores do mundo como está, os papagaios falsamente emotivos dos clichés ou das convenções”; “A nossa capacidade em favorecer o aparecimento de espaços libertadores de harmonia, de beleza, de amor, de aventura, de improvisação e de inovação”; “Ser-se o próprio génio” ; “A questão não é só sabermos o que podemos criar, mas ao mesmo tempo interrogarmo-nos sempre sobre o que desejamos criar”.Génio “crealista”: o de uma alma que não se contenta em pensar o mundo como ecrã, mas que reconstrói sem interrupção o real a partir de ideias ajustadas ao seu mais profundo desejo”.

 

 

 

 

 

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